Jornalista do GLOBO vai à Suécia cobrir evento sobre Bergman e acaba tendo de ficar nu diante de agentes de imigração.

A abordagem foi seca, interrompendo meu caminho para o corredor de saída:  ??????????????? –  foi o que entendi do que disse, em suéco, o homem uniformizado. Estava no Aeroporto de Arlanda, em Estocolmo, chegando de uma longa viagem que vinha do Rio, com escala em Paris. Cansado e surpreso, não tive presença de espírito para soltar um sorry? Em vez disso, expressei minha incompreensão.

– Ahn??? – English? – Perguntou.

Confirmei que podíamos nos entender em inglês. Costumo dizer, brincando, que tenho um tipo físico (pele morena, olheiras marcadas, lábios grossos, cabelo ondulado, nariz largo) que me torna um visitante suspeito em qualquer país desenvolvido do mundo. Dependendo do destino, posso ser visto como árabe, indiano ou mesmo brasileiro. Afinal, em números absolutos, nossos turístas são os mais barrados nos aeropotos da Europa.

O agente perguntou de onde eu vinha. Já me sentia pouco à vontade. – Rio, Brazil – disse com uma simpatia patética, temendo ser convidado a embarcar num avião de volta para casa depois de ter sido convidado pelo governo suéco a visitar seu país.

Ele quis saber o que eu iria fazer lá. Infomei que ia, a convite da Embaixada da Suécia, para a ilha de Faro, onde estava sendo realizada a Bergaman Week (série de eventos anual que ilumina a vida e a obra do cineasta Ingmar Bergman).

– Humm, Begman Week, comentou.  – O senhor pode me acompanhar, por favor?

No hall ao lado do corredor ela pediu para pôr a mala e a mochila sobre o balcão. Enquanto a esvaziava, fazia peruntas. A cada três perguntas, uma era repetida, no estilo “É a sua primeira vez na Suécia?” ou “Você conhece alguém aqui?

Depois de ver passagens, documentos, confirmação de hotel e passar as malas vazias pelo raio-x para ver se não havia nada no forro, ele me informou que eu podia guardar minhas coisas. Ainda  não fui liberado.

– Deixe as malas aí, por favor e vamos à sala onde iremos revistá-lo. Não encostaremos no senhor, mas pediremos que tire suas roupas.

A falta de reação ao pedido – que obedeci novamente parecendo casual- tem a ver com exaustão e com a impressão de legalidade que todo processo transmite. Não é como em uma Blitz de madrugada no Rio, onde sabemos exatamente quando a linha de legalidade é ultrapassada.

Após pedirem para ver a sola dos meus pés e que levantasse o braço para confirmar que não havia nada nas minhas axilas, eles me intimaram a baixar a cueca até o joelho. Frente. Costas. Saíram da sala e pude me vestir novamente.

– Ele disse, o senhor pode ir, aproveite sua estada na Suécia.  Sem responder nada peguei a bagagem e saí.

Nos dias seguintes, pude comprovar o que intuía: o episódio nada tinha a ver com a hospitalidade sueca – que experimentei em Faro e no centro de Estocolmo. Ambiente de medo no qual a diferença sempre é lida como um mau disfarce para o inaceitável. (O GLOBO, domingo 10 de julho de 2011. Reportagem de Leonardo Lichote.)

Não pode deixar expressar minha indiginação com o relato desta reporatgem, esta não é a primeira e concerteza não será a última vez que um cidadão brasileiro para este tipo de constrangimento nos aeroportos Europeus. Lembro do caso da companhia Teatro da Curva convidada para apresentar em um festival na Inglaterra, porém nove dos dez integrantes foram barrados ao desembarcarem, em agosto de 2010.

Segundo dados da Frontex (a agência de fronteiras) em 2010 foi o 3° ano consecutivo, que os brasileiros são os estrangeiros mais frequentemente barrados ao tentar entrar na Europa por aeroportos. No ano passado, 6.072 brasileiros foram impedidos de entrar na UE, 12% do total do mundo. A maioria dos impedidos de entrar foi barrada na Espanha – 1,8 mil brasileiros não foram autorizados a entrar a partir dos aeroportos de Madri e Barcelona. O Brasil também lidera entre os estrangeiros mais barrados nos aeroportos franceses, com 673 casos.

Este dado nos faz refletir o tamanho do incômodo e constrangimento de receber tratamentos como ter de ficar nu para ser revistado ou ser obrigado a voltar para casa com uma frustação no lugar das lembranaças de uma viagem tão desejada. A Embaixada Brasileira deveria se movimentar no sentido previnir que nossos compatriotas continuem a mercê do acaso contando apenas com a sorte para entrar na Europa.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *