Foram duas horas de pavor e violência na Grande São Paulo e 18 mortos, numa das piores chacinas da história. A principal suspeita é de que grupos de extermínio, formados por policiais, estejam envolvidos nos assassinatos em série. Nossos repórteres localizaram testemunhas que escaparam da matança e conseguiram imagens do misterioso carro prata usado pelos assassinos em pelo menos quatro dos oito locais da chacina.

Osasco, Grande São Paulo, quinta-feira passada (13), as imagens no vídeo acima são exclusivas. Elas mostram quando um carro prata, um Peugeot 206, passa pela rua. Fica 40 segundos parado em frente a uma loja de doces e vai embora pelo outro lado da rua, virando à esquerda.

Um senhor que estava na loja conta o que aconteceu: “Estacionou aí na frente. Simplesmente não falou nada, e atirou nele. Dois tiros”.

A vítima foi um jovem de 16 anos. A testemunha diz que os assassinos, dois homens encapuzados, desceram do carro. Um eles e chegou a apontar uma arma apontada para a cabeça da testemunha.

“Eu pensei que ele fosse atirar. Foi um milagre de Deus mesmo”, conta o senhor.

O Fantástico também localizou outra testemunha. ”As pernas travou. Você não sabe o que faz da sua vida. Só pensa em Deus, Nossa Senhora”, diz.

Ele é dono de um bar onde duas pessoas foram mortas, em Osasco. O relato é parecido com o da outra testemunha. Esta também cita dois assassinos num carro prata. “Ficou observando o rapaz. Eu achei ou é bandido, vão assaltar o bar, ou é alguma bronca”, diz.

O comerciante revela: dentro do carro, os assassinos não usavam capuz. Só esconderam o rosto na hora do crime. “Desceu encapuzado. Não falou nada, desceu e deu os disparos, seis disparos. E eu entrei para dentro, só fiquei rezando de joelho, para me salvar”, conta.

Na quinta-feira, 15 pessoas foram assassinadas em sete pontos de Osasco. Na cidade vizinha, Barueri, houve mais três mortes, em dois locais diferentes. Os assassinatos aconteceram num espaço de 20 quilômetros, em cerca de duas horas e 20 minutos.

Na noite seguinte, o Fantástico voltou à região da chacina. Vinte e quatro horas depois do ataque, os repórteres não encontraram nenhum bar ou comércio aberto no local. E olha que era sexta-feira. Era para ser um dia de muito movimento.

Morador: Eu saí de casa, vim comprar um cigarro. Não tem nada aberto, nada.
Fantástico: O senhor nunca tinha visto isso?
Morador: Nunca, nunca.

Em dez, quinze minutos, a equipe do Fantástico viu oito carros da polícia passando pelo local. Vários policiais apareceram. Parece que houve um tiroteio naquele momento.  Um suspeito acabava de ser preso com um carro roubado. O rapaz que dirigia tentou fugir, mas a polícia deu dois tiros, um no para-brisa e também na porta de trás.

Alguns moradores reclamam que o policiamento demorou para aparecer na região. “O pessoal esperou acontecer a chacina pra depois colocar a polícia na rua? Por que que ontem não teve? Por que antes de ontem não teve? Ou por que que semana passada não teve?”, questiona um morador.

Até agora, a principal suspeita aponta para o envolvimento de policiais militares na chacina.

A polícia já sabe que pelo menos dez pessoas, divididas em três grupos, participaram dos 18 assassinatos. E que as armas utilizadas eram de calibres 38, 380 e 9 milímetros.

“Nós conseguimos identificar o número de série de um dos projeteis de uma 9 milímetros. Já vamos saber onde ela foi comprada”, diz Alexandre de Moraes, secretário de Segurança Pública de São Paulo.

Também já há informações sobre o carro prata usado pelos bandidos. “Quatro pessoas que estavam dentro do Peugeot prata”, diz o secretário.

Quanto ao perfil das vítimas. “Não estavam foragidas, não tinham prisão decretada. Mesmo as seis vítimas que tinham passagens pela polícia eram passagens, algumas por lesão corporal, receptação culposa. Nenhuma das vítimas foi morta por estar praticando algum crime”, destaca o secretário.

A suspeita é de que a chacina foi por vingança, depois de duas mortes recentes na região. Sete de agosto, o cabo da Polícia Militar Avenilson Pereira de Oliveira é morto a tiros durante um assalto a um posto de combustíveis, em Osasco. Ele não estava fardado.

Barueri, um dia antes da chacina. O guarda civil Jeferson Rodrigues reage a um assalto e também é morto a tiros. O crime foi no comércio dele, uma revendedora de bebidas.

“No local onde morava e trabalhava o policial militar foi realizada a chacina em Osasco. E no local onde trabalhava e próximo onde morava o guarda civil, foram realizadas as três mortes”, destaca o secretário.

As imagens, de quinta passada, reforçaram a suspeita do envolvimento de policiais. Dois criminosos encapuzados matam dois homens, em um bar de Barueri. Antes, perguntaram quem tinha passagem pela polícia, antecedente criminal.

“O modo de pegar na arma, de empunhar a arma. Tudo indica bem claramente para a possibilidade de ser um policial militar. É impressionante a semelhança que existe com outros casos. Por exemplo, um caso de Campinas”, comenta Júlio Cesar Fernandes Neves, ouvidor-geral da Polícia- SP.

Foi em janeiro do ano passado. Um policial militar foi morto num assalto a um posto de gasolina em Campinas, interior de São Paulo. Depois, em 5 horas, 12 pessoas foram executadas. Na época, cinco PMs acabaram presos, acusados de participar dessa chacina.

“Trata-se de pessoas travestidas de polícia que, na realidade, são pessoas de grupo de extermínio, que tem que ser expulsos da corporação”, diz o ouvidor-geral.

Fantástico: Secretário, é possível adiantar para o Fantástico que policiais e ex-policiais participaram da morte dessas pessoas em Barueri e em Osasco?
Alexandre de Moraes: Nós não vamos, de forma alguma, nos precipitar. Mas as linhas grandes, duas linhas de investigação, são exatamente em relação aos policiais e em relação aos guardas civis. Se ficar comprovado que um policial praticou um crime, ele vai ser tratado como um criminoso.

Um dos 18 mortos é o ajudante geral Deivison Lopes Ferreira, de 26 anos. O corpo dele ficou 12 horas no chão, à espera do Instituto Médico Legal.

“Ninguém merece isso. Meu irmão ficou igual um cachorro, morto lá”, diz Jorge Henrique Ferreira, irmão de Deivison.

Deivison ia para a casa de um amigo. O irmão acha que ele teve dificuldade na hora de falar com o assassino.

“Ele tem um problema no ouvido, que ele não fala direito. E se você está deparado com um revólver, com alguma coisa, você fica nervoso”, conta o irmão da vítima.

Deivison foi morto com seis tiros. Dezoito anos atrás, o pai dele foi assassinado no mesmo bairro, também com 6 tiros.

“Dizem que é porque ele era mecânico. Dizem que foi cobrar alguém ou tinha alguma dívida com alguém. Mas ninguém sabe”, diz o irmão.

Jorge cuidava do único irmão Deivison como se fosse um filho. Ele faz um apelo ao assassino. “Que ele venha a se arrepender, que ele bota a mão na consciência, que ele tirou um pedaço da nossa família”, lamenta o irmão.

 

(http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2015/08/testemunhas-que-escaparam-de-chacina-revelam-acao-de-criminosos.html)

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