Ponte mais antiga de Campos pode cair

Foram necessários mergulhadores do Corpo de Bombeiros, e a repercussão na mídia de “desastres decorrentes de chuvas (com mortos)”, para que fosse detectado o risco que a ponte João Barcelos Martins, em Campos, apresentou, na semana passada, com seus pilares balançando mais que o normal. Fixaram-se aos pilares da ponte, lixo e detritos, comprometendo a estrutura da construção e aumentando o que especialistas chamam de arrasto da ponte.

Na semana passada, a quantidade de água no Paraíba era tão grande que a Defesa Civil do Rio de Janeiro considerou, por assim dizer, inviável a avaliação mais aprofundada da ponte. A João Barcelos Martins, que liga o centro de Campos ao bairro Guarus, foi interditada no último dia 17, após o Corpo de Bombeiros afirmar que, devido à forte correnteza do rio, ficaria difícil fazer a limpeza dos pilares.

Quando houve a interdição, o rio Paraíba chamou a atenção de Campos para o volume e pressão de suas águas, intensos, e o nível elevado que preocupa, principalmente, quem se prejudica com as enchentes. De acordo com o secretário de Obras, César Romero, “quando a vegetação fica presa aos pilares (por cima e também por baixo da água), causa um efeito hidrodinâmico, o que pode provocar o deslocamento dos pilares e um acidente”. Qualquer bom observador sabe que lixo nos pilares das pontes em Campos não surge como mágica. Há tempos a população vê passar, como uma balsa, placas de terra com grama nas águas do Paraíba. Muitas têm como destino os pilares.

A administração pública afirma, de fato, enxergar pontos prejudicados na ponte Barcelos Martins, pela ação do tempo, e que “assim que o nível do rio baixar poderá ser feita uma vistoria completa”. Mas… o tempo vem agindo na estrutura da ponte há muito, e ainda não havia sido feita uma vistoria completa?

É o perigoso “pagar pra ver”, mas quem paga pela falta de zelo é o povo. A população de Campos, principalmente a mais pobre, é quem corre, diretamente, os riscos da demora e ineficiência administrativas; uma população deixada à margem enquanto, paradoxalmente, se discute questões sérias envolvendo o interesse público. O público se interessa por uma cidade bem estruturada e tem, em tese e em prática, o direito de se sentir – e estar – em segurança. É direito.

O ditado que diz que “Prevenir é melhor do que remediar” parece não fazer efeito nos trâmites da administração pública. O rio está cheio, mas já esteve com nível de água baixo o suficiente para que vistorias fossem feitas, antecipadamente.

Ora, parece, no mínimo, fictícia uma cidade com histórico de quedas de pontes (com mortes) esperar que seu rio transborde e, aí sim, depois de abaixar o nível da água, vistoriar estruturas que deveriam, no mínimo, ser monitoradas regularmente, e não somente quando apresentassem riscos. Aqui, há o agravante de se tratar de uma estrutura como a da ponte Barcelos Martins, a mais antiga de Campos, com seus quase 138 anos. A administração pública parece saber administrar mais os danos do que as formas de combatê-los.

É certo que, após os olhos arregalados de pedestres e ciclistas que utilizam a ponte diariamente, diante da situação do rio Paraíba, pescadores da cidade, com o Corpo de Bombeiros, fizeram uma limpeza dos pilares, tirando o acúmulo de galhos e matos para que haja passagem das águas. Isto não é o suficiente. E quem paga a conta é a população.

Checagens breves e superficiais da ponte, feitas pela Prefeitura, diante de uma população preocupada, apontaram, ainda, que alguns parafusos e uma parte da solda da João Barcelos Martins estão soltos. Por mais incrível que possa parecer, mesmo com parafusos soltos e pilares que podem se locomover a qualquer momento, a ponte, sem nenhum tipo de reparo, foi liberada para o tráfego, na tarde de ontem (24/01).

Hoje, a população trafega de um lado a outro da ponte, normalmente, aguardando a “hora certa” para uma vistoria completa na Barcelos Martins. A população, que precisa da ponte diariamente, prefere acreditar num laudo técnico da secretaria de Obras e Urbanismo, que afirma que “a situação no momento não apresenta riscos”. Mas não foi feita uma vistoria completa. Logo, os riscos estão aí. O que a cidade anuncia é isso: uma ponte e administração com parafusos a menos.

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