Estiagem tem obrigado transferência de blocos de energia entre regiões.
Falha de terça evidenciaria vulnerabilidades e complexidade do sistema.

 

Embora o governo descarte que o apagão de terça-feira (4) esteja relacionado com o aumento do consumo de energia provocado pelo calor, especialistas afirmam que a demanda em alta, batendo sucessivos recordes, e o baixo nível dos reservatórios foram determinantes para a falha que provocou falta de energia em 13 estados e no DF, e evidenciam as vulnerabilidades do sistema energético brasileiro, além de falhas de planejamento e gestão.

“O que fizeram foi um apagão controlado. A forma como o governo apareceu, regozijando o fato de ter evitado um desastre maior, pareceu até uma confissão de que estão esperando por coisa pior”, diz o diretor do Instituto de Energia e Ambiente da USP, Ildo Luís Sauer.

Para o diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE), Adriano Pires, para qualquer explicação técnica sobre a causa do apagão não se pode desconsiderar o nível baixo dos reservatórios das hidrelétricas e o aumento do consumo provocado pela onda de calor, que têm exigido a transferência de grandes blocos de energia da região Norte para o Sul e Sudeste, onde o nível dos reservatórios está mais crítico.

“Quanto maior o bloco de energia levado nas linhas de transmissão, maior a probabilidade de dar algum problema. Se não tivesse pico de demanda e se os reservatórios estivessem todos cheios, o país não estaria precisando transportar grandes cargas de energia, que chegam a percorrer linhas de até 3 mil quilômetros. Essa é a causa verdadeira”, afirma o especialista.

Segundo o diretor da Coppe/UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, o aumento do consumo num contexto de calor e nível baixo de água nos reservatórios aumenta a complexidade da operação do sistema elétrico, que passa a depender de um número maior de termoelétricas em atividade e de transferências de grandes quantidades de energia a longa distância.

“Já estamos em época de chuvas e os reservatórios continuam abaixo do esperado. Com isso, operar o sistema fica muito mais difícil. Tudo precisa ser feito de maneira otimizada, passando energia de um lado para o outro do país. Se uma linha cai, não dá parar suprir com energia de Itaipu, por exemplo, porque ela já está toda sendo usada”, explica Rosa, que já foi presidente da Eletrobras.

Segundo o professor da PUC-RJ e ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), David Zylbersztajn, o atual contexto aumenta os riscos de falha. “Alto consumo e reservatórios baixos significam restrição operacional. As instabilidades são muito mais difíceis de serem controladas e a operação é muito mais na ponta dos dedos”, diz.

Recordes de consumo
Embora o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tenha negado falha humana e cogitado, na última quinta-feira (6), a hipótese de que um raio pode ter provocado os curtos-circuitos que atingiram as linhas em Tocantins, a causa do apagão ainda não foi identificada. O relatório sobre as causas do problema deve ficar pronto em 15 dias.

Ainda na quinta, a presidente Dilma rebateu o ONS. Por meio do ministro de Comunicação Social, Thomas Traumann, Dilma disse que se raios são responsáveis, é preciso ver se operadores estão mantendo sua rede de para-raios em ordem, disse em nota.

O apagão da última terça (4) provocou o desligamento automático de 12 linhas de transmissão de energia de alta tensão (500 kV) que compõem a interligação Norte/Sudeste. Segundo o ONS, no momento dos curtos-circuitos trafegavam 4.800 MW (megawatts) em uma linha projetada para operar 5.100 MW.

Relatório preliminar do órgão revelou que às 14h de terça, exatamente 3 minutos antes do início do apagão, a região Sul registrou recorde de consumo de energia, o que levou alguns a cogitarem a hipótese de sobrecarga – hipótese negada pelo ONS. No dia seguinte, o país voltou a bater recorde de energia demandada, com uma carga de 85.708 MW às 15h41.

Rede de transmissão continental
Segundo o professor da UFRJ Nivalde de Castro, coordenador do Gesel (Grupo de Estudos do Setor Elétrico), estava sendo transportado na linha que provocou o apagão o equivalente a 7% do consumo nacional. Embora acredite que o incidente de terça-feira esteja mais associado a alguma falha técnica ou humana, ele diz que o risco de novos apagões é inerente às características do sistema brasileiro.

“O problema não é o recorde de consumo, é a característica de uma rede de transmissão de dimensão continental, que é uma das maiores do mundo com cerca de 110 mil quilômetros”, diz Castro.

Ao contrário do que acontece na Europa, por exemplo, onde a geração termoelétrica é preponderante, e as usinas costumam ficar perto dos grandes centros de consumo, no Brasil, onde a matriz energética é baseada em hidrelétricas, as usinas ficam longe das grandes cidades, o que torna a rede de transmissão muito mais complexa e estratégica, além de exigir a constante necessidade de investimentos em linhas novas.

Segundo o coordenador do Gesel, de 2003 a 2013 foram construídos 31 mil km de linhas de transmissão, o que mostra que tem sido feito investimentos contínuos no setor.

Na opinião de outros analistas, porém, falhas de gestão e planejamento, como os frequentes atrasos nas obras de infraestrutura, contribuem para deixar o sistema elétrico do país mais vulnerável.

“Temos um parque eólico pronto na Bahia, mas ocioso porque ainda não há uma linha de transmissão pronta”, diz Adriano Pires.

Manutenção falha
A qualidade do trabalho de manutenção e prevenção das linhas de transmissão também é motivo de suspeita. “Nitidamente, o sistema não está adequado. Ou a manutenção não existe ou as rotas alternativas não foram construídas como deveriam”, diz Ildo Sauer, da USP.

O professor explica que o conceito de manutenção preventiva é baseado na confiabilidade da operação. Ou seja, a perda de um único componente ou circuito, por mais importante que seja, deve ser compensada e anulada pelas outras partes, de forma a garantir a preservação do funcionamento do sistema.

“Que há capacidade de energia para suprir a demanda é verdade. Mas se está instalada, mas não disponível no grau de confiabilidade necessário, é o mesmo que não estar disponível”, afirma Sauer.

Zylbersztajn critica a incapacidade do sistema brasileiro de realizar desligamentos mais precisos e localizados. “O Brasil está tecnicamente muito atrasado em inovação tecnológica e eficiência energética, não temos condições de fazer cortes seletivos”, diz.

Para os analistas, a decisão do governo de impor uma remuneração até 70% menor para renovar as concessões de usinas, transmissores e distribuidoras também trouxe mais vulnerabilidade ao setor, ao reduzir o caixa das empresas. A Eletrobras, por exemplo, abriu até um plano de demissão voluntária, com a expectativa de adesão de 5 mil trabalhadores.

“Diminuíram o preço da tarifa, mas o custo foi mantido. A situação financeira das empresas ficou apertada e há uma série de indícios de deterioração do grau de manutenção”, afirma Sauer.

Custo da energia em alta
Desde 2013, o Tesouro arca com os custos extras gerados pelo baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas, que obriga maior recurso à energia térmica, que é mais cara. No ano passado, o desembolso foi de cerca de R$ 9 bilhões e o governo já reservou igual quantia para a mesma finalidade no Orçamento deste ano.

A falta de chuvas também elevou o preço da energia no mercado de curto prazo – que afeta distribuidoras que não têm energia suficiente para atender a seus mercados -, o que pode deixar a conta de luz mais cara ou elevar ainda mais os gastos do Tesouro, caso o governo decida não fazer o repasse aos consumidores.

Para Zylbersztajn, um programa de estímulo à eficiência energética voltado para a população ajudaria a reduzir os riscos trazidos pelos recordes consecutivos de consumo em um momento desfavorável para fornecimento de energia elétrica.

“Em vez de só baixar tarifa, o governo deveria, sem causar pânico, começar a estimular o consumo mais restrito”, defende o especialista.

“Os recordes de consumo dos últimos dias mostram que o sistema está mais pressionado à tarde e que o horário de pico não é mais entre as 18h e 22h, o que aponta para a necessidade de um sistema de tarifação mais flexível”, sugere Sauer.
Embora avaliem que ainda não exista a necessidade de racionamento de energia ou risco imediato de apagão no país por falta de capacidade de geração, os especialistas são unânimes na avaliação de que interrupções no fornecimento de energia na dimensão da ocorrida na terça-feira podem se repetir, e de forma pior.

“Risco zero não existe, ainda mais na situação atual, com essa ginástica toda que é feita. O problema de terça foi rapidamente recomposto, fizeram o possível e mostraram eficácia. Mas ainda não há risco de falta de energia”, avalia Pinguelli Rosa.

Segundo Adriano Pires, como não há um plano B para lidar com um cenário de verões cada vez mais quentes e sem chuvas, o risco de novos apagões permanecerá alto enquanto o nível dos reservatórios não voltar a subir. “O ministro de Minas e Energia em exercício hoje se chama São Pedro”, conclui.

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