Mesmo em um país onde a miscigenação cultural e étnica tem grande influência na base da formação de sua população, a intolerância religiosa tem sido constante tanto nos grandes centros quanto nas periferias. Nas últimas semanas, várias notícias de depredações em terreiros de Candomblé e Umbanda, religiões principais alvos da intolerância ultimamente, ganharam repercussão nacional e mobilizaram diversos setores da sociedade. Os últimos casos de ataques a centros espiritualistas aconteceram em Nova Iguaçu. Em Campos, adeptos das religiões afro-brasileiras também sofrem com a não aceitação de suas práticas. Para representantes de diferentes denominações religiosas, a intolerância é inaceitável.

Segundo o presidente do Fórum Municipal de Religiões Afro-brasileiras (Frab) de Campos, Gilberto Coutinho, o Totinho, o movimento social tem recebido denúncias de intolerância religiosa no município. “Nós já recebemos diretamente pelo menos 12 pedidos de socorro. A gente considera a intolerância como racismo religioso. O ato da intolerância é uma forma de ridicularizar uma pessoa que batalha para conquistar seu espaço e seu direito perante uma sociedade a se tornar um nada. É uma forma de tirar o ‘poder’ no sentido da representatividade que uma mãe ou pai de santo tem perante a população. E quando uma casa (terreiro) é atacada não estão ferindo apenas aquela casa, mas sim a um patrimônio cultural da sociedade, a todo um grupo que lutou e tem lutado constantemente contra qualquer tipo de preconceito”, afirmou ao ressaltar que o Frab tem realizado ações afirmativas no combate à intolerância e para resgatar o reconhecimento dos terreiros perante a sociedade como religiões que pregam o bem e a fé.

Uma dessas ações afirmativas aconteceu no dia 1º de setembro, quando aconteceu a solenidade de entrega do CNPJ às comunidades tradicionais de terreiro. Na ocasião, o prefeito de Campos, Rafael Diniz (PPS), destacou que todo cidadão deve ter seu direito de escolha garantido, também pelo Executivo, para que Campos seja uma cidade de todos os povos.

De acordo com o bispo da Diocese de Campos, Dom Roberto Ferrería Paz, a Igreja Católica condena qualquer tipo de intolerância. “Não temos o direito de ridicularizar nada daquilo que é sagrado para o outro. Nossa premissa é sempre o respeito, inclusive esse respeito também é defendido pelo Papa Francisco. Nós apoiamos a caminhada pela paz e contra a intolerância religiosa e manifestamos nosso repúdio a todos os ataques sofridos pelas religiões de nação”, afirmou.

O pastor da Segunda Igreja Batista de Campos, Éber Silva, também condena as práticas intolerantes. “O respeito é saudável e deveria ser mantido sempre. A intolerância religiosa deve ser combatida bilateralmente. Qualquer intolerância deve ser excluída, mas a responsabilidade de se manter a tolerância é de ambos os lados”, comentou.

MPRJ em busca de plano de ação conjunta

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) está promovendo um amplo debate para estabelecer um plano de ação conjunta para o enfrentamento dos casos de intolerância religiosa e racismo que têm sido registrados com frequência no Rio de Janeiro.

No último dia 15, o secretário Nacional de Políticas para Igualdade Social, Juvenal Araújo, veio ao Rio em caráter emergencial para se reunir com órgãos de segurança e com MPRJ. Ele foi recebido pelo procurador-geral de Justiça, Eduardo Gussem. Também estava presente ao encontro o interlocutor da Comissão de combate à intolerância religiosa (CCIR), professor Babalawô, Ivanir dos Santos. Eles trouxeram uma grande preocupação com o recrudescimento dos atos criminosos contra as religiões de matriz africana, principalmente em municípios da Baixada Fluminense.

— Eu quero pedir o apoio do Ministério Público do Rio de Janeiro para criar estratégias de trabalho e ações efetivas para o fim dos atos de violência — afirmou Juvenal Araújo. Ele vai encaminhar ao MPRJ um dossiê sobre violência religiosa com relato de casos desde 2014. No encontro, Eduardo Gussem disse que o MPRJ fará um levantamento dos casos mais recentes para dar uma resposta à sociedade. Para o professor Ivanir dos Santos o discurso do ódio só aumenta. “Precisamos entender e atuar efetivamente contra casos de intolerância religiosa e racismo”.

Caminhada e outros atos para conscientizar

Como meio de alcançar a sociedade e conscientizá-la sobre os direitos da liberdade religiosa, a 10ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa foi realizada no último dia 18, na orla de Copacabana, no Rio de Janeiro. De Campos, um grupo de pelo menos 60 pessoas participaram do ato. Em Macaé, no dia 21, também foi feito um manifesto.

A caminhada no Rio de Janeiro é organizada pela Comissão de Combate a Intolerância Religiosa (CCIR). A comissão se formou em 2008, após traficantes de drogas, que se diziam evangélicos, da Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio, expulsarem integrantes de matriz africana de suas casas.

Neste ano, a caminhada, que contou com a participação de diversos grupos culturais, também celebrou a adesão de escolas de samba da cidade do Rio de Janeiro, tais como Portela, Mangueira e União da Ilha, além da ilustre presença do compositor, escritor e musicistas Martinho da Vila, um dos maiores símbolos da literatura brasileira.

Em Macaé, o ato em defesa da liberdade religiosa e do respeito as religiões de matrizes afro-brasileiras recebeu o nome de “Macaé mais tolerante”. O manifesto aconteceu no calçadão da avenida Rui Barbosa e atraiu praticantes e simpatizantes do Candomblé e da Umbanda.

Em março deste ano, no Dia Internacional de Combate ao Racismo, o Frab também realizou um ato na praça do Santíssimo Salvador para conscientização do moradores de Campos.

Estatuto que permite liberdade é aprovado

A classe política também tem se empenhado para o combate à intolerância. Na última semana, a Comissão de Justiça da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) aprovou o projeto de lei do deputado estadual Átila Nunes que cria o Estatuto da Liberdade Religiosa.

Segundo o deputado, o projeto de lei reforça na Alerj o debate e a busca de solução visando promover o respeito entre as diversas crenças, que há de ser o objetivo maior daqueles que defendem a verdadeira democracia, onde o respeito às diferenças religiosas seja cumprido pela sociedade, mantendo-se o Estado laico para dirimir de forma imparcial todas as questões que forem pertinentes à matéria.

Além desse projeto, outra proposta já apresentada ao governador Luiz Fernando Pezão para enfrentar a onda crescente de intolerância religiosa é a concretização da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi). O intuito é dar condições para que casos de intolerância religiosa e racismo sejam registrados e investigados adequadamente.

Redes sociais: cenários comuns de ataques

Uma das ferramentas utilizadas frequentemente para os ataques intolerantes contra adeptos das religiões afro é a rede social. Em março deste ano, várias ofensas foram postadas na internet após um grupo do Frab comparecer à Câmara de Campos para uma reunião com um vereador. Quando ocorreu a entrega do CNPJ às comunidades tradicionais de terreiro, as ofensas também foram registradas em grupos de WhatsApp e postagens no Facebook.

Recentemente, um anúncio de venda de duas imagens de entidades cultuadas na Umbanda foi publicado em um bazar de Campos e a mulher que tentava vender os produtos também foi ofendida. Em um dos comentários na postagem de venda uma pessoa diz: “O mal que você não quer para você, não passe para frente… Respeito todas as religiões, mas a palavra de Deus diz não adores escultura de pau…”.

Fonte: Folha da Manhã

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