Presidente concedeu entrevista exclusiva ao Fantástico e falou sobre os desafios na economia, na política e na Copa do Mundo.

A presidente Dilma Rousseffconcedeu uma entrevista exclusiva ao Fantástico e falou sobre os desafios na economia, na política e na Copa do Mundo. Dilma recebeu Patrícia Poeta no seu gabinete de trabalho, o Palácio do Planalto. Mas a conversa começou no Palácio da Alvorada, a residência oficial da presidência.

Patrícia Poeta: O que que tem a sua cara aqui, que a senhora gosta, que a senhora se enxerga?
Dilma Rousseff:
A biblioteca. Acho aquela biblioteca ela muito bonita também. E um local muito bom, eu gosto muito de conviver com livro. E livro. Apesar de eu ter feito um esforço e aprendi a ler no Ipad. Eu leio hoje e-books, eu gosto de página, gosto de papel, gosto do cheiro de papel. Uma coisa de infância, sabe?

O palácio tem 143 empregados. Mas a presidente conta que usa pouco do que tem à disposição. Não usa, por exemplo, as oito suítes da área privativa, nem o cinema com 30 lugares. A sala de ginástica, só vem quando chove. E a de jogos serve apenas para ela gravar seu programa de rádio.

Patrícia: Como é que é acordar todo dia como presidente da República?
Dilma:
É como todo mundo acorda, Patrícia.

E ter que escolher, por exemplo, uma roupa, tem que estar sempre muito bem alinhada, tem que se preocupar com isso também. Como é que está a sua saúde?
A minha está boa. Agora, estou tentando, como sempre, emagrecer.

Mas a senhora pretende emagrecer quantos quilos? O sonho de consumo?

Uns quatro, cinco quilos.

Mulher quer sempre perder um pouquinho, né?

Não, é voltar o que eu era antes da eleição.

E a senhora tem passado por um acompanhamento médico depois do câncer tratado?

Olha, eu sistematicamente acompanho, mas agora é de seis em seis meses. A questão do câncer hoje é uma questão resolvida quando você consegue detectar cedo. Isso é muito importante. Se as pessoas fazem prevenção, elas têm, então, condições de detectar e tratar. Foi o que aconteceu comigo.

O trajeto entre os Palácios da Alvorada e do Planalto – a casa e o trabalho da presidente da República – leva quatro minutos. É ela quem faz questão de me destacar esse detalhe de eficiência e rapidez. Duas qualidades que aprecia muito.

Patrícia Poeta: Aqui é o gabinete da presidência da República, certo?
Dilma Rousseff: É verdade.

A senhora senta em frente à mesa para reuniões com os ministros. As obras que a senhora fez questão de trazer de Djanira, né?
Uma homenagem à mulher, uma das maiores pintoras desse país.

E eu vi que tem também uma fotinho do seu neto na sua mesa.

Tem uma fotinho da minha filha e do meu neto.

O que tira a senhora do sério?

Eu vou te falar, eu acho que quando a gente não deu o melhor de si, me tira do sério.

Aí, a senhora vai lá e cobra e é aí que entra bronca.

Mas sabe o que é? Eu cobro de mim também.

E quando falam, assim, do seu temperamento, isso incomoda a senhora de alguma forma ou não, a senhora não está nem aí para isso?
Sabe o que é, Patrícia? Ossos do ofício. Tem vários ossos do ofício de ser presidente. Um é esse. O caso, por exemplo, da luta contra a corrupção é osso do oficio da presidência, ou seja, é intrínseco à condição de presidente zelar para que o dinheiro público seja bem gasto. Depois, eu tenho uma responsabilidade pessoal também nessa direção.

A senhora não imaginava, por exemplo, que fosse ter que trocar quatro ministros em tão pouco tempo, três deles, pelo menos, ligados a denúncias de corrupção, esperava isso?
Olha, Patrícia, eu espero nunca trocar nenhum ministro e muitos deles eu não troquei exatamente por isso. Vamos e venhamos. O ministro Jobim, Nelson Jobim, saiu por outros motivos.

Mas os outros três..
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Eles ainda não foram julgados, então não podem ser condenados.

Mas isso foi faxina ou não foi, presidente?

Eu não acho, eu acho a palavra faxina errada, porque faxina você faz às 6h da manhã, e às 8h, ela acabou. Atividade de controle do gasto público, na atividade presidencial, jamais se encerra.

Por que a senhora acha que nesses oito anos e oito meses do governo de PT, eles não foram capazes, não foram suficientes para acabar com a corrupção, já que essa é uma das bandeiras do partido?
Minha querida, a corrupção ela não… Por isso que não é faxina, viu, Patrícia? Você não acaba com a corrupção de uma vez por todas. Você a torna cada vez mais difícil.

É possível ter um governo equilibrado, um governo estável, tendo a base aliada que tem no Congresso? A minha pergunta é a seguinte: a senhora acha que a senhora pode ficar refém dos aliados?
Mas eu não acho, Patrícia, que eu sou refém.

Nem que pode ficar?

Nem acho. Tem de ter muito cuidado no Brasil para a gente não demonizar a política. Nós temos uma discussão de alto nível com a base, com a nossa base, e nós vamos…

E como que a senhora controla esse toma lá da cá, digamos assim, cada vez mais sem cerimônia das bancadas? Como é que a senhora faz esse controle?
Eu não dei nada a ninguém que eu não quisesse. Nós montamos um governo de composição. Caso ele não seja um governo de composição, nós não conseguimos governar.

Qual que a senhora acha que foi, nesses oito meses, o seu maior acerto?

Nesses oito meses? Deixa eu pensar. Por que eu estou pensando? Porque eu não posso te dar várias. Porque eu acho que algumas coisas eu acertei bastante. Eu vou falar, eu acho que foi muito acertado, logo de início, ter entregue os remédios de graça. Sabe por que eu estou falando isso? Porque eu acho que a pessoa que não tem dinheiro para comprar um remédio que precisa, acho que é um drama humano violento. Olha, Patrícia, eu fico muito orgulhosa de uma outra coisa. É outra coisa que não é assim grande, mas para mim é importante. É importante reduzir imposto. Então, eu gostei de fazer isso. Para quem? Para o super simples e para o MEI.

Em abril, a presidente reduziu impostos pagos pelos microempreendedores individuais, chamados MEI. E em agosto, propôs a diminuição dos impostos das pequenas empresas.

Dilma Rousseff: Então eu acho que são as duas coisas que eu mais me orgulho, entre outras. Se você deixar, eu penso em mais umas dez. Nós tiramos 40 milhões de pessoas da pobreza. Essas pessoas são hoje da classe média. O meu maior compromisso é garantir para esses 40 milhões, mais os outros que já usavam, garantir educação pública de qualidade, saúde de qualidade e segurança pública de qualidade.

Já que a presidente tinha acabado de falar em redução de impostos, em seguida, pergunto sobre o novo debate nos meios políticos: a possível volta da CPMF, o chamado imposto sobre o cheque. A presidente logo esclarece:

Dilma Rousseff: Eu sou contra a CPMF, hein.

Patrícia Poeta:
A senhora acha que a gente precisa de um imposto, de mais um imposto, para ter um atendimento de saúde melhor?
Sabe por que a população é contra a CPMF? Porque a CPMF foi feita para ser uma coisa e virou outra. Acho que a CPMF foi um engodo nesse sentido de usar o dinheiro da saúde e não para saúde.

Está falando que foi desviado?

Foi, foi. O dinheiro não foi usado onde devia. Nós, na saúde pública do país, gastamos 2,5 vezes menos do que na saúde privada. Um país desse tamanho, o maior país da América Latina, com a maior economia da América Latina, gasta 42% menos na saúde do que a Argentina. Para dar saúde de qualidade, nós vamos precisar de dinheiro, sim.

Isso seria quando?

O mais rápido possível.

Outra polêmica recente: houve interferência da presidente na decisão do Banco Central de reduzir a taxa básica dos juros em 0,5%.
Não, nós não fazemos isso. Nós estávamos dizendo naquela oportunidade é que a crise econômica, quando se aprofundou ali por agosto, ela criou uma nova conjuntura internacional. É esta conjuntura internacional que cria a diferença e não nós interferindo no Banco Central.

E a crise econômica mundial? Que impacto a senhora acha que isso vai ter no Brasil nos próximos meses?
Nós temos um mercado interno crescente e vamos combater essa crise crescendo.

Que a indústria nacional vem freando, dando uma estagnada.

Pois é, mas veja, a indústria deu uma diminuída em relação ao ano passado, que nós crescemos 7,5%. Nós estamos esperando esse ano crescer em torno de 4%. Nós, até julho, nós geramos 1,5 milhão de empregos. Se fosse nos EUA ou na Zona do Euro, qualquer país da Zona do Euro, estariam soltando foguete.

E como estamos na semana da notícia de que a inflação deu um pulo de 0,16%, em julho, para 0,37% em agosto, pergunto se esse aumento preocupa.

Dilma Rousseff: A inflação é algo que sempre tem de nos preocupar, sabe, Patricia? Você sempre tem de ter um olho no crescimento e o outro olho na inflação.

Patrícia Poeta:
A senhora acha que o Brasil vai estar preparado, vai estar pronto para a Copa do Mundo de 2014?
Ah, tenho absoluta certeza.

O que faz a senhora acreditar nisso?

Por quê? Porque nós vamos ter nove estádios ficando prontos até dezembro de 12. No máximo início de 13. Tempo de sobra para Copa.

Aeroportos?

Aeroportos, nós estamos com três aeroportos em licitação, já totalmente formatada a engenharia. Vamos fazer essas licitações no final desse ano.

A sensação que dá para o cidadão brasileiro é que o processo tem sido lento.

Mas eu posso te mostrar os estádios, por exemplo. Eu olhei recentemente, fizemos um balanço aqui, nós monitoramos com informações online, fotos e tudo.

Presidente, muito obrigada por essa conversa, por mostrar um pouco da sua intimidade para gente, por ter me recebido aqui em Brasília. Agora, chega de papo, né? Vai trabalhar, presidente. Muito prazer em conhecê-la pessoalmente. Bom

Obrigada.

Fonte:  Bom Dia Brasil

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