No imaginário popular, a máxima de que “não existe inimigo mais temível que um ex-amigo” encontra retrato fiel na política brasileira. Seja no Planalto, em Campos ou em outro município, a crônica do poder é rica em grandes adversários que surgiram de um vice. Num ano de eleição, o episódio entre Dilma e Temer é alerta para os cuidados – que deveriam existir – na hora de se buscar um companheiro de chapa visando a disputa eleitoral.

Neste momento, os partidos buscam fechar coligações e acertar alianças para a composição de chapa com um vice que possa agregar capital politico eleitoral ou mesmo um maior tempo de televisão.

GAROTINHO E ARNALDO – Na planície goitacá, há precedentes emblemáticos. Em 1996, eleito prefeito pela segunda vez, Anthony Garotinho escolheu Arnaldo Vianna como vice. Quatro anos depois, Garotinho fez Arnaldo prefeito, mas logo identificou focos de corrupção por todos os lados em seu governo.

Garotinho pediu que Arnaldo exonerasse algumas pessoas, entre elas os secretários de Fazenda e Particular.

Após uma dura reunião, Arnaldo prometeu mas falhou ao não cumprir a promessa. Seus auxiliares mais diretos continuariam no governo. A situação de desmandos permaneceu e, anos depois, Arnaldo se tornaria inelegível, condenado pela Lei da Ficha Limpa em vários tribunais por uma série de irregularidades em seus dois governos. Assim, de aliados, Garotinho e Arnaldo passaram a adversários. Ou inimigos políticos.

“O vice (no Brasil) normalmente acaba tendo papel figurativo. Serve só para amarrar alianças para as eleições. Mas às vezes complica e até conspira”, diz o cientista político Felipe Albuquerque, pesquisador da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

Ele aponta que, com o vínculo frágil e a aproximação do vice ao poder, é natural o surgimento de rusgas por espaços e influência no governo entre aliados.

EM CAMPOS OPOSTOS

Em Cardoso Moreira, o prefeito Gegê Cantarino (PRB) e o vice Renato Jacinto (PSDB) também estão politicamente rompidos. Renato inclusive, nestas eleições irá formar chapa na eleição majoritária contra Gegê, ao lado do ex-prefeito Gilson Nunes Siqueira (PP).

Em São Fidélis, o atual prefeito Luiz Fratane (PMDB), o Fenemê, está rompido há vários anos com o ex-prefeito Davi Loureiro, que deverá retornar à disputa pela prefeitura este ano.

Pela região Norte Fluminense há outros exemplos. Em Macaé, o prefeito Aluizio Junior (PMDB) e o vice Danilo Funke (Rede) já não cabiam no mesmo espaço e logo houve o rompimento na disputa pelo governo estadual em 2014. Funke começou a disparar críticas contra o governo de Aluízio e por este ter apoiado a candidatura de Luiz Fernando Pezão (PMDB). À época, Aluizio era do PV.

VICE DISCRETO – No plano federal, alguns vices primaram pela discrição, como Marco Maciel, que formou chapa com Fernando Henrique Cardoso em seus dois mandatos. No entanto, Itamar Franco, vice de Fernando Collor, tornou-se presidente depois do impeachment que afastou o representante de Alagoas e logo se afastou do antigo aliado. Entrou no Palácio do Palácio disparando contra seu antecessor.

“O conflito é tão comum pela própria política de alianças feitas no Brasil. Alianças não ocorrem por convicções ideológicas, mas por interesses pragmáticos”, avalia a cientista política Nayara Macedo, doutoranda pela Universidade de Brasília. Ela afirma que o conflito poderia ser evitado com um vínculo político maior na coalizão.

Se relembrada agora, em 2016, a cena parece até surreal: recém eleitos e lado a lado, Dilma Rousseff e Michel Temer sobem juntos a rampa do Palácio do Planalto. Dilma recebe das mãos de Lula a faixa presidencial enquanto o vice, paciente, observa de longe. Os dois se aproximam e erguem os braços em gesto histórico, que pouco remete às farpas e acusações mútuas em que se tornou, hoje, a relação entre a presidente afastada e seu vice, agora presidente interino.

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