São 18 milhões de pessoas sem emprego no país, pelas contas do IBGE. Em tempo de dinheiro curto, tem muita gente esticando vencimentos para sobreviver. E nesse turbilhão de incertezas, as contas não param de chegar. Atento à situação, SPC Brasil, o Serviço de Proteção ao Crédito, ouviu 602 consumidores com dívidas acumuladas por 90 dias ou mais. E a triste constatação: “Dívidas fazem mal para o bolso, a cabeça e o coração. Ansiedade, angústia, alteração de apetite e dificuldades no relacionamento são alguns dos sintomas de quem não consegue pagar as contas”. Segundo a psicóloga, Lúcia Alexim, o primeiro passo rumo à solução é assumir o problema e procurar ajuda. Segundo o indicador de inadimplência do SPC, em setembro, o número de brasileiros negativados alcançou 59 milhões.

Pela pesquisa, dois de cada três entrevistados se sentiam deprimidos, angustiados ou ansiosos por estarem devendo. Mais de quatro em cada 10 sentiam vergonha dos parentes e amigos e 17% passaram a apelar para cigarro, comida e álcool para descontar a ansiedade.

Outro dado constatado é que quatro em cada dez endividados chegam a perder o sono. Esse foi o caso da costureira VPR, de 40 anos. “Tudo começou com a facilidade de crédito e minha necessidade de comprar mais uma máquina de costura. Acabei adquirindo uma dívida de R$ 6 mil, no cartão de crédito. Dentro de dois meses fico livre dessa dívida, que já vem rolando há mais de um ano. Já foram noites sem dormir e durante o dia, dezenas de ligações da operadora cobrando a dívida. Como sou autônoma, com a crise minha clientela também reduziu. Não está sendo nada fácil, mas estou conseguindo colocar as minhas finanças em ordem”, contou.

Relacionamentos pessoais e profissionais também são afetados com as dívidas que se acumulam. 16% das pessoas não conseguem se concentrar no trabalho e 13% relatam que com o nervosismo partiram para agressões verbais contra familiares e amigos.

Orientação — A psicóloga Lucia Alexim explica que o estresse do endividamento afeta todo o organismo, numa reação em cadeia, e eleva a probabilidade de problemas graves, como úlcera, derrame, depressão, ansiedade e outros. “O cérebro interpreta a dívida como uma ameaça e dispara uma série de reações químicas. Se o endividamento é crônico, a liberação constante de hormônios do estresse faz com que o corpo comece a se adaptar a essa nova realidade”.

Ainda segundo ela, é preciso ficar atendo. O problema pode causar desde a queda de cabelo, até um infarto. “Poucos endividados conseguem colocar a cabeça no travesseiro e ter uma noite de sono reparador. Na maioria dos casos, chegam ao consultório psicológico envergonhados, deprimidos, doentes. Para ter ideia, o alcoolismo afeta 30% dos superendividados, mais do que o dobro do encontrado na população em geral”, ressalta Lucia.

Para quem está nessa situação, o primeiro passo rumo à solução é assumir o problema e procurar ajuda. “A ajuda será sempre bem vinda, seja de uma pessoa próxima ou até mesmo de um profissional, falar sobre o problema com alguém pode abrir um leque de soluções que muitas das vezes não se consegue quando guarda o sofrimento para si”, aconselha.

Negativados chegam a 59 milhões, diz SPC

O número de brasileiros negativados aumentou em setembro e atingiu 59 milhões, após três meses seguidos de queda, de acordo com o Indicador de Inadimplência Pessoa Física do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). Em um ano, houve um crescimento de 2 milhões de negativados — em setembro de 2015, os consumidores em situação de inadimplência somavam 57 milhões.

As dívidas em atraso por setor da economia mostram que o maior avanço no número de pendências foi com os bancos e com as empresas concessionárias de serviços como água e luz.

Já as dívidas com o comércio recuaram -1,14%. A maior retração foi no setor de comunicação, que engloba TV por assinatura, internet e telefonia, com recuo de -7,47%. Para os especialistas do SPC Brasil, esta queda ainda não pode ser configurada como tendência para o segmento, mas sim uma acomodação, já que o setor foi o destaque negativo da inadimplência ao longo de vários meses em 2015.

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