A presidente afastada Dilma Rousseff entra para história como a primeira a comparecer ao Senado para apresentar defesa própria em um processo de impeachment. Por cerca de 45 minutos, ela não poupou críticas ao governo interino de Michel Temer, falou que conta com o apoio da população contra o processo que classifica como “golpe”, disse que foi à Casa para “olhar diretamente nos olhos” dos que a julgarão e recordou momentos de tortura que viveu durante a ditadura militar. Após o discurso, Dilma foi questionada pelos senadores — 51 se inscreveram para interrogá-la. Protestos ocorreram em algumas pontos do país, o principal na avenida Paulista, em São Paulo. Temer disse que não assistiu ao discurso. Dilma teve direito a levar convidados ao Senado, entre eles estiveram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o cantor e compositor Chico Buarque.

A petista negou ter cometido crimes dos quais é acusada, segundo ela, “injusta e arbitrariamente”. Emocionando-se por mais de uma vez durante o discurso, a presidente afastada afirmou que jamais renunciaria ao mandato, mesmo sob a forte pressão feita por seus adversários políticos.

Dilma lembrou a atuação do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que foi o responsável por dar o sinal verde ao processo contra ela na Casa. Segundo Dilma, se ela tivesse se “acumpliciado” com a improbidade e com o que, classificou, que “há de pior na política brasileira, como muitos até hoje parecem não ter o menor pudor em fazê-lo, eu não correria o risco de ser condenada injustamente”.

A presidente disse ainda que durante o período em que esteve afastada do mandato recebeu críticas ao seu governo, que diz ter acolhido com “humildade”: “Até porque, como todos, tenho defeitos e cometo erros”.

Dilma afirmou que as acusações de crime de responsabilidade são “pretextos” usados pelos seus adversários. Ela ainda fez uma breve defesa de novas eleições, discurso que passou a adotar após ser afastada em maio. Em um tom mais emocional, falou que esteve diante da morte quando foi torturada e quando passou por um tratamento de câncer: “Hoje eu só temo a morte da democracia, pela qual muitos de nós aqui nesse plenário lutamos com o melhor dos nossos esforços”.

Dilma citou “outras tentativas de golpe” na história da República, exemplificando com Getúlio Vargas, Juscelino Kubitscheck e João Goulart, que “superou o golpe do parlamentarismo, mas foi deposto e instaurou-se a ditadura militar, em 1964”. Segundo a presidente, o impeachment é “um golpe que, se consumado, resultará na eleição indireta de um governo usurpador”.

Terminado o depoimento, Dilma passou a ser questionada pelos senadores. O julgamento é presidido por Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). Nesta terça os senadores vão julgar se a presidente cometeu crime de responsabilidade. Se 54 dos 81 parlamentares disserem que sim, Dilma perde o mandato. A previsão é que a sessão termine na madrugada de quarta.

Cara a cara com Aécio Neves novamente

Os questionamentos de Aécio Neves (PSDB-MG) eram os mais aguardados na sessão desta segunda. Eles foram adversários na campanha presidencial em 2014. O senador mineiro resgatou falas usadas por Dilma desde a disputa e criticou o argumento usado pela defesa de que o processo é um golpe por ela ter sido eleita legitimamente em 2014 com 54 milhões de votos.

— Vossa Excelência recorre aos votos que recebeu como justificativa. Não é salvo-conduto. É delegação que pressupõe deveres e direitos. O maior dos deveres de quem recebe votos é o respeito a leis e à Constituição — provocou o tucano.

Em resposta às declarações de Aécio, Dilma lembrou que, após sua reeleição, uma série de medidas para desestabilizá-la foram adotadas. Como exemplo, citou o pedido do PSDB ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para que houvesse auditoria nas urnas eletrônicas e nas contas da campanha petista. Sobre a situação da economia, ela atribuiu a crise à queda no preço das commodities que impactaram na queda de arrecadação.

Além de Aécio, outros 50 senadores se inscreveram para fazer perguntas a Dilma.

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