revista Veja traz em sua edição desta semana detalhes da delação de executivos da Odebrecht, que relataram o pagamento de propina aos principais políticos do país. Citados anteriormente quando foi divulgada uma planilha da empresa — com supostos valores de propina e codinomes atribuídos a políticos beneficiados—, o casal Anthony e Rosinha Garotinho reaparecem na  lista e, segundo a delação, recebeu R$ 9,5 milhões em propina. Os valores teriam sido usados para reforçar o grupo em três eleições.

Confira a matéria da Veja na íntegra:

O que Sergio Cabral e Anthony Garotinho têm em comum? Está certo, muitas coisas, nenhuma delas edificante. Ambos aparecem, por exemplo, nos anexos da delação premiada do diretor da Odebrecht Leandro Andrade Azevedo.

Se Garotinho achou que seus problemas haviam acabado, agora perceberá que o pior está por vir. Ou melhor, já veio.

Azevedo acusa a mulher de Garotinho, Rosinha, de elaborar duas licitações para a construção de casas populares em Campos do Goytacazes, cidade em que ela era prefeita, com especificações que só permitiram à Odebrecht vencer o certame.

Mas como não há benesse grátis, a construtora desembolsou um total de R$ 9,5 milhões em contribuições oficiais e repasses de caixa 2 a campanhas de Garotinho e Rosinha, entre 2008 e 2014.
O delator diz que, em 2009 e em 2012, Rosinha lançou etapas do programa “Morar Feliz”.

“Diante deste cenário, os fatos me levam a crer que os referidos editais, relativos aos Programas “Morar Feliz I e II” foram lançados levando em consideração que a única empresa grande que teria condições e interesse de fazer a obra era a Odebrecht, o que seria a contrapartida aos pagamentos realizados a pretexto de doações de campanha feitos em 2008″.

Azevedo se refere à corrida eleitoral em que Rosinha tonou-se prefeita de Campos pela primeira vez, em 2008. Na ocasião, segundo ele, a Odebrecht repassou R$ 1,5 milhão em dinheiro vivo ao caixa 2 da campanha da senhora Garotinho.

Ainda de acordo com o executivo, o roteiro se repetiu em 2012, na reeleição de Rosinha, e em 2014, quando Garotinho disputou e perdeu a cadeira de governador do estado.

O delator conta que, entre doações oficiais e de caixa 2, a Odebrecht bancou R$ 2,3 milhões para ajudar Rosinha a se manter no comando do executivo de Campos.

Dois anos mais tarde – vale lembrar, ocasião em que a Lava Jato já estava nas ruas – segundo Azevedo, foram mais R$ 5,8 milhões à campanha de Garotinho, também levando em conta contribuições por dentro e por fora.

O patriarca do clã era conhecido na Odebrecht pela inglória alcunha de “Bolinha”. Azevedo revela mais: um Garotinho centralizador, capaz de cobrar pessoalmente os repasses prometidos pela empresa.

“Posso dizer que este tipo de conversa, ou seja, cobrança por eventuais atrasos na entrega dos valores ou mesmo repactuação sobre os valores do pagamento eram comuns”.

Em contrapartida, o político enrolado com a Justiça mostrava-se disposto a agir para que a Odebrecht não saísse no prejuízo. “Presenciei algumas vezes Garotinho telefonando para os secretários da Fazenda do Município durante a gestão de Rosinha[…] e pedindo que tivéssemos preferência na regularização dos pagamentos em atraso, o que de fato aconteceu”.

Azevedo relata uma relação informal, quase de camaradas, iniciada a partir da possibilidade de empresa e político engordarem seus caixas. “embora eu não tivesse qualquer relacionamento com Rosinha, a quem conheci na data da assinatura deste contrato (Morar Feliz), mantinha relação próxima a Antonhy Garotinho, o que me permitia tratar com ele, sem burocracia, qualquer dificuldade que tivesse em nossos projetos. Foram exatamente os pagamentos feitos a Garotinho a pretexto das doações de campanha que abriram as portas para o meu contato direto com ele”.
Ao melhor estilo uma mão suja a outra.

A equipe entrou em contato com a assessoria do ex-governador, por e-mail, que enviou como resposta uma publicação feita por Garotinho em seu Blog:

“A revista Veja, na coluna Radar, afirma que na delação premiada do diretor da Odebrecht Leandro Azevedo, vários políticos do Rio, entre eles eu, teriam recebido dinheiro ilegal da empresa. Sempre mantive com o senhor Leandro Azevedo e outros diretores da empreiteira uma relação respeitosa e republicana, mas não posso deixar sem resposta o que ele teria dito, que a Veja publica na sua edição deste final de semana. No caso de Pezão, Eduardo Paes e outros políticos, ele sempre afirma que pagou parte em dinheiro e outra parte em contas no exterior, citando inclusive os países e as contas. No meu caso ele não faz isso. Gostaria, em nome do respeito que todas as pessoas merecem, que se o senhor Leandro Azevedo fez qualquer depósito em contas que eu teria no exterior, como relatou de outros políticos, que informe o país, o banco e número da conta que teria depositado dinheiro em meu nome ou de Rosinha, como a matéria da Veja insinua. Sinta-se à vontade para dizer os valores que teriam sido depositados nas referidas contas, que ele não dirá porque não existem. Quanto às doações legais que ele disse ter feito, existem recibos eleitorais, comprovantes de gastos da campanha e abertura e fechamento da conta eleitoral no Itaú, na cidade do Rio de Janeiro.

Entendo o momento difícil que a empresa vive, assim como as demais empresas envolvidas em denúncias de corrupção. Mas querer me comparar a Sérgio Cabral ou outros políticos que usam o governo para enriquecimento pessoal não é justo, nem muito menos verdadeiro. Ele diz também que acha que o contrato para a construção de casas do projeto Morar Feliz, em Campos, foi direcionado para a empresa. Deve pedir aos seus advogados, do escritório Ferreira Pinto, Cordeiro, Santos e Maia, explicações sobre o contencioso existente na Justiça entre a Prefeitura de Campos, administrada por Rosinha e a Odebrecht. Só posso encarar a declaração do doutor Leandro no âmbito do ressentimento. A Prefeitura rescindiu esse contrato unilateralmente após um longo processo administrativo onde a empreiteira tenta receber mais de R$ 30 milhões. A prefeitura não paga por entender que não é devido, pois foge aos preceitos da lei 8.666. Tudo que estou afirmando aqui posso comprovar através de farta documentação existente dentro dos processos da Prefeitura contra a Odebrecht e vice-versa. Aliás abaixo mostro trecho do documento onde a empresa aciona a prefeitura judicialmente. 

Delação premiada não pode nem deve servir para cobranças de faturas de obras onde existam divergência entre as partes, muito menos para vingança. Para isso existem as esferas competentes. 

Por algumas vezes que me encontrei com o doutor Leandro ou outros diretores da Odebrecht, eles próprios diziam ter saudades do meu governo em relação ao governo Cabral, onde diziam que eram extorquidos a cada fatura que recebiam. 

O que a Veja fez, me perdoe o jornalista, não é jornalismo. Querer colocar o denunciante, que há quase 10 anos vem combatendo a corrupção no Estado no mesmo patamar dos que praticaram atos de improbidade só pode interessar a quem não deseja que ao final das apurações o joio esteja separado do trigo”. 

 

 

Fonte Revista Veja

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *