Mas, à primeira vista, era possível perceber alguns hematomas na criança, um indício de que ela não morreu sozinha. Um médico amigo da família chegou ao local e disse que a garota estava morta. Eu perguntei, então, porque a família não prestou socorro. Mesmo que a criança esteja morta, a gente ainda corre com a criança para o médico.

Em seguida, a mulher que se dizia mãe da garota foi descoberta como a pessoa que ‘pegou’ a menina para trabalhar na casa dela. Eu falei para a delegada que achei aquilo muito estranho. O resultado da primeira perícia foi de que a vítima tinha sido estuprada várias vezes.

Eu tinha percebido sinais de muita violência quando o corpo foi removido, mas me contive e fiquei fria. Foi uma cena deplorável. Me veio à mente o comportamento maldoso quando vi que ela estava só de calcinha. Quem toma banho de calcinha?

Fiquei imaginando como um ser humano poderia fazer aquilo com outro ser humano, uma criança. Desde o início havia essa suspeita e eu fui a mais veemente contra o casal que morava na casa. Eu disse para a delegada que tinha alguma coisa estranha e pedi para não deixarem eles irem embora. Se não fosse isso, eles teriam fugido, mas foram presos na mesma hora e negaram o crime a vida inteira.

Passamos a noite inteira no caso, mas quando chegamos no dia seguinte à delegacia e vimos as fotos da perícia feita pelo Instituto Médico Legal (IML), não teve como aguentar.

O comentário de Aline, filha da policial civil Marielene, no Facebook da BBC Brasil
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O comentário de Aline, filha da policial civil Marielene, no Facebook da BBC Brasil

Quando eu cheguei em casa, não falei nada. Mas minha filha acordou de madrugada e,quando a gente se abraçou, eu chorei. Então, comecei a relatar o caso com se eu estivesse conversando com um adulto.

Apesar de ela ter apenas 11 anos na época, a mesma idade da vítima, ela sempre se inteirou de tudo. Ela era muito inteligente e eu me confidenciava com ela porque eu não era casada e a Amanda era minha companhia.

No dia seguinte, ela estava almoçando e, com as lágrimas caindo, me perguntou: ‘Mamãe, será que a Marielma está no céu?’. Respondi: ‘Com certeza’. Esse momento ficou dentro de mim. Nunca vou esquecer.

Dias depois, ela disse: ‘Mãe, o relato tocou tanto dentro de mim que eu já orei para essa menina muitas vezes.’

Semelhanças
Com o passar dos dias, eu olhava a minha filha dormindo e pensava naquela criança no IML. Mesma idade, mesmo tamanho e até o rostinho era muito parecido com o da Amanda. Fora o meu outro filho, que também tinha 8 anos na época.

Eu me senti muito incapaz diante daquilo. Por que não cheguei meia hora mais cedo? Por que nenhum vizinho ligou para a polícia e disse que tinha uma griança gritando? A menina tinha cortes na orelha, feitos com tesoura ou faca. Será que ela não gritou?

No dia do crime, os vizinhos disseram à polícia que ouviam gritos durante sessões de maus tratos contra a menina. A vizinhança inteira ouvia que a menina era torturada e ninguém tomava uma atitude. Isso é muito triste. Saber que as pessoas percebem esse tipo de coisa e não tomam nenhuma atitude.

Me recordo que a casa onde a vítima foi encontrada tinha até um quarto destinado à tortura. No chão desse cômodo havia uma série de objetos que foram sido usados para torturar aquela criança. Cabos de vassouras quebrados, calcinhas com sangue e outras coisas. Roupas rasgadas. Parece que o fetiche dos criminosos era rasgar as roupas da pessoa.

A gente pensa: que defesa tem um humano desse? Eu já vi muitas mulheres pós-estupro, muitas mortas, mas houve uma tentativa de defesa. Agora, a criança não tinha o menor sinal de que tentou se defender, nenhuma unha quebrada, nem arranhou segurando alguma coisa. Isso é muito triste e você compara com os filhos dentro da sua casa e desaba no choro.

Na época do crime, eu fiquei lembrando de mim mesma quando fui abusada por um dentista quando tinha 13 anos. Minha mãe mandou eu ir sozinha ao consultório e ele tentou pegar nos meus seios. Eu era esperta e percebi, mas isso não ocorre com todas as crianças.

Jamais me esqueci daquilo e nunca deixei meus filhos irem ao médico sozinhos. Até o motivo de eu continuar solteira pode ter sido por isso. Eu nunca admiti padrastro para eles porque a gente fica apavorada. Isso mexe com a gente.

Depois do caso Marielma, todos esses fatos voltaram à minha mente. Foi um marco na minha vida.

Condenado pela morte de Marielma, Ronivaldo cumpriu dez anos de prisão e está fora
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Condenado pela morte de Marielma, Ronivaldo cumpriu dez anos de prisão e está fora

Investigações
Desde então, eu entro na internet com frequência para acompanhar casos de estupro infantil, morte infantil. Eu tenho quatro ou cinco nomes de foragidos por cometer esses crimes, inclusive ele (Ronivaldo), que eu jogo sempre na internet, em todas as redes sociais, para ver se reencontro.

Como uma pessoa que cometeu um crime hediondo desse está solta? Será que ele está cometendo de novo? Eu tenho esse prazer de pegar esse tipo de gente. Eu não deixo de mão. Se ele fugir mil vezes, a gente vai prender.

A sociedade tem que ajudar a acabar com esses crimes também. Os vizinhos ouviram a menina ser torturada. Que sociedade é essa que se cala, que não denunciou?

Poderiam ter falado: ‘Olha, acho que tem uma menina ali perto da minha casa gritando’. Nós temos que cultivar essa atitude nas pessoas. Temos que nos imaginar no lugar do outro. Eu falo sempre isso para os meus filhos.

Se alguém me diz que tem uma suspeita de alguma coisa, eu digo: ‘Epa! Vamos ver o que é isso’. Não existe suspeita que vai ficar ilesa. Eu sou uma agente de segurança e tenho o dever de fazer valer a vontade do Judiciário, que disse que esse homem deveria estar na prisão. E não é difícil achar.

Eu fico preocupada porque as crianças são muito frágeis e não pedem socorro. Quem garante que essas pessoas não estão fazendo novas vítimas?”

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