BRASÍLIA – Com recados claros para o mercado financeiro, governo e Congresso Nacional, o Banco Central (BC) afirmou que não pode cortar juros neste momento, apesar da recessão econômica. A ata do Comitê de Política Monetária (Copom) aponta para um período maior de taxa básica em 14,25% ao ano. Nela, os dirigentes da autoridade monetária disseram que não há espaço para um alívio na política de controle inflacionário porque as expectativas para os preços — feita pelos analistas — ainda estão muito longe da meta de 4,5%. Frisaram também que a velocidade do processo de desinflação depende da aprovação das medidas de controle de gastos enviadas ao Legislativo.

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Os membros do Copom concordam que houve melhora perceptível do cenário macroeconômico e que indicadores recentes mostram perspectiva de estabilização da atividade econômica no curto prazo. Houve progressos também no controle da inflação, principalmente por causa das quedas das estimativas para os próximos dois anos, mas numa velocidade aquém da almejada. O BC falou claramente que a sua política depende das projeções do mercado:

“O Comitê deve procurar conduzir a política monetária de modo que suas projeções de inflação, inclusive no cenário de mercado, apontem inflação na meta nos horizontes relevantes”.

A aposta do mercado está em IPCA de 7,25% para este ano. Está mais alta que as previsões feitas nos modelos do BC. Tanto no chamado cenário de referência (quando o Copom faz a conta com juros e câmbio estáveis), quanto no cenário de mercado (quando usa as estimativas dos analistas para fazer as projeções), os cálculos apontam para inflação em torno de 6,75%. O BC observa que contempla desinflação na economia brasileira nos próximos anos, mas aponta que as expectativas do mercado ainda não convergiram.

“Para 2017, a desinflação até a meta ocorre sob as hipóteses do cenário de referência. Entretanto, no cenário de mercado, a desinflação ocorre em velocidade aquém da perseguida pelo Comitê”, alerta o Copom, que explica que sob as hipóteses do cenário de mercado, a inflação para 2017 situa-se em torno de 5,3%.

O BC ainda diminuiu o peso do reajuste das tarifas públicas — o grande vilão da inflação nos últimos anos — para 2016. A aposta caiu 0,2 ponto percentual e ficou em 6,6%, abaixo do valor projetado na reunião do Copom de junho. Por outro lado, para 2017, a alta deve ser de 5,3%: 0,3 ponto percentual acima do valor projetado na última reunião.

RISCOS PARA A INFLAÇÃO

Segundo a ata do Copom, há riscos de curto prazo para a inflação no Brasil. A elevação recente nos preços de alimentos pode se mostrar persistente por causa da transmissão dos preços do atacado para o varejo. Em contrapartida, o período sazonalmente favorável — por causa da safra — pode contribuir para uma reversão rápida desses preços. O Copom alerta para o fato de a experiência brasileira mostrar que períodos prolongados de inflação alta e expectativas acima da meta reforçam mecanismos inerciais e tornar o processo de desinflação mais lento e custoso.

“Nesse contexto, uma maior persistência inflacionária requer uma persistência maior da política monetária. Por outro lado, o processo contínuo de distensão do mercado de trabalho e a desaceleração significativa da atividade econômica podem, a princípio, produzir uma desinflação mais rápida (por exemplo, no setor de serviços) do que a refletida nas expectativas de inflação medidas pela pesquisa Focus e nas projeções condicionais produzidas pelo Copom.”

Sobre a recente surpresa dos índices de preços, o BC diz que foram causadas pela alta de alimentos e “talvez” pela maior persistência da inflação. No debate sobre o tema, o Copom focou, ainda, no grau de confiança na desinflação em curso. De acordo com a ata, alguns membros ponderaram que, diante da desaceleração econômica observada até aqui, esperava-se uma queda maior da inflação. Outros esperam que os efeitos desinflacionários do nível de ociosidade na economia ainda possam vir mais intensamente.

“Todos os membros do Comitê reconheceram progressos em relação às perspectivas de desinflação da economia brasileira, mas demonstraram preocupação com medidas de expectativas de inflação apuradas pela pesquisa Focus acima da meta para 2017 e com projeções do Comitê para a inflação que se situam acima da meta em horizontes de 18 ou mais meses, sob as hipóteses do cenário de mercado.”

 

FISCAL

Segundo o BC, os ajustes necessários na economia, inclusive de natureza fiscal, apresentam-se “como um risco e uma oportunidade” para o processo desinflacionário. O perigo é se os agentes financeiros perceberem que esses ajustes seriam abandonados, ou postergados significativamente.

“Nesse cenário, o processo desinflacionário tenderia a ser mais lento, aumentando os custos de levar a inflação para a meta.”

A oportunidade é a possibilidade de acelerar a queda de inflação. Isso, segundo o Copom, permitiria ganhos de confiança e queda das expectativas de inflação. A redução de incertezas potencializaria os efeitos do ajuste monetário em curso.

“Todos os membros do Comitê enfatizaram que a continuidade dos esforços para aprovação e implementação dos ajustes na economia, notadamente no que diz respeito a reformas fiscais, é fundamental para facilitar e reduzir o custo do processo de desinflação. Não houve consenso sobre a velocidade desses ajustes, o que sugere que constituem, ao mesmo tempo, um risco e uma oportunidade”, ressaltaram os diretores que entendem não haver apenas impactos de confiança no curto prazo, mas há necessidade de melhora da dinâmica das contas públicas no médio e longo prazos.

“Os membros do Comitê ressaltaram que o ajuste das contas públicas pode envolver medidas com impactos diretos desfavoráveis sobre a inflação, e que esse é um risco a ser monitorado”, mas não detalharam quais seriam.

ATIVIDADE

Para o Copom, há perspectiva de estabilização da atividade econômica no curto prazo. Há sinais o investimento e a produção industrial pararam de cair. São vistos alguns sinais “incipientes” de melhora nas perspectivas da atividade econômica apesar de a economia seguir com nível elevado de ociosidade tanto na estrutura das indústria quanto no desemprego.

CENÁRIO EXTERNO

Sobre a decisão do Reino Unido de sair da União Europeia (Brexit), o Copom ressaltou que a ação dos BCs com sinais de estímulos conseguiram acalmar os mercados financeiros e criar um ambiente de curto prazo “relativamente benigno” para economias emergentes.

No entanto, o Copom ressaltou que o cenário permanece frágil por causa das incertezas sobre o crescimento global e a possibilidade de aumento de juros em economias desenvolvidas.

“Os possíveis desdobramentos econômicos do Brexit contribuíram para um aumento das incertezas de médio e longo prazos e produziram revisões negativas das projeções de crescimento para o Reino Unido e para a Zona do Euro”, diz a ata.

O documento lembra ainda que os Estados Unidos têm sinalizado que deverão aumentar os juros de forma mais gradual, entretanto, as trajetórias de juros sinalizadas pelos membros do Comitê de Política Monetária de lá estão acima da trajetória prevista e negociada nos instrumentos financeiros. O BC brasileiro faz um alerta: “O que pode levar a correções adiante”.

APOSTA PARA OS JUROS

O tom mais pesado da ata do Copom fez o economista-chefe da corretora Gradual, André Perfeito, alterar sua aposta para o início dos cortes de juros. Ele previa o início das quedas em outubro. Após ler o documento, alterou seu posicionamento.

— Por sinal essa ata nova parece uma mulher que resolve cortar o cabelo curto para mudar de vida ou um homem que deixa a barba crescer para mudar de cara.

Ele faz referência à toda a mudança na comunicação do BC. Para tentar recuperar a credibilidade perdida pelo ex-presidente Alexandre Tombini, o novo presidente da autarquia, Ilan Goldfajn, reformulou todos os instrumentos de comunicação. Com a ata não foi diferente.

O texto foi mais conciso e claro. Deixou de lado os vários números de indicadores, um trecho que era ignorado pelos analistas do mercado. Passou a focar na análise e deu mais informações para os economistas trabalharem.

 

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