Cronologicamente, o tempo parece remoto, mas para nós que lidamos com pessoas portadoras de HIV/AIDS, é como se fosse ontem.  São 30 anos da doença no Brasil e 24 dedicados aos soropositivos para o HIV/AIDS.

Ainda sinto a angústia e impotência diante do quadro desolador de quem se encontrava com AIDS em 1985/86. O HIV atacava o sistema imunológico do paciente, deixando-o vulnerável a doenças como:

* Sarcoma de kaposi (sk);

* Pneumociste carine;

* E a outras infecções.

Que em poucos meses levava o doente a óbito (não havia medicamento disponível no mercado). A morte do paciente era associada à dor, a expressões fisionômicas cadavéricas, ao preconceito e a desesperança. Um período de muitas especulações, poucas informações e de muitas incertezas.

No entanto, em 1987 surge uma esperança para quem estava infectado pelo HIV/AIDS, o AZT, primeiro medicamento a reduzir a replicação do vírus. Novos tempos, novos desafios. Cientistas não desistiam e buscavam fórmulas e alquimia para tentar eliminar o HIV.

A corrida contra a epidemia une governos Estaduais, Municipais, Federal, ONGs e Sociedade Civil Organizada. O Programa Nacional de DSTs e AIDS lança em 1996 o primeiro consenso em terapia antirretroviral (regulamentação de medicações para combater o HIV). Neste período, os soropositivos passam a ter direitos a receber gratuitamente a medicação para o tratamento da AIDS, e o AZT venoso é disponibilizado na rede pública. A doença avança e são 22.343 casos no Brasil.

A 13ª Conferência Internacional sobre AIDS, em Durbam, na África do Sul, (2000) denuncia ao mundo a mortandade na África, 17 milhões de pessoas morreram no continente, sendo 3,7 milhões crianças, e 8,8% adultos. No Brasil, aumenta a incidência da doença em mulheres. A proporção de casos notificados é de uma mulher para cada dois homens. A luta não para, e em 2006 o Brasil reduz em mais de 50% o número de casos de transmissão vertical (quando o HIV é passado da mãe para o filho, durante a gestação, o parto ou a amamentação). A AIDS já não é uma doença desconhecida. Já se sabe que homens e mulheres que se relacionam com vários parceiros sem o uso do preservativo está vulnerável ao HIV, mesmo assim, o número já ultrapassa a 433.000 de casos registrados.

Os antirretrovirais reduzem a proliferação do vírus HIV, mas não os eliminam, e a solução seria uma vacina eficaz, capaz de neutralizar completamente o HIV. Mas isso, ainda é um desafio: “A vacina ideal deverá estimular respostas imunológicas capazes de bloquear a infecção por via sexual, intravenosa e a transmissão materno-fetal. Essa deverá ser ainda capaz de não só produzir anticorpos capazes de neutralizar partículas virais livres, mas também respostas imunológicas celulares, capazes de destruir células infectadas. Some-se a esse, o desafio do não conhecimento dos correlatos de imunidade para que se defina o que é esperado de uma vacina eficaz. Além disso, pelo que se conhece hoje, é possível que sejam necessárias diversas vacinas (ou verdadeiros “coquetéis”) para lidar com os vários subtipos do HIV prevalentes nos diversos países afetados pela pandemia”.

As conquistas foram inegavelmente importantes para reduzir a multiplicação do vírus HIV, oferecendo ao portador maior sobrevida e melhor qualidade de vida. Até junho de 2010 já se contabilizavam no Brasil 592.914 casos registrados de AIDS desde 1980. Hoje, um teste positivo para o HIV já não é uma sentença de morte, o paciente não tem o estereótipo de quem tinha AIDS há 30 anos, as terapias oferecem aos soropositivos a chance de viver com dignidade. Os medicamentos estão à disposição (ainda não curam), mas é uma conquista, uma fonte inesgotável para quem necessita usá-los para viver saudável e na esperança de uma cura definitiva. Na retrospectiva da ordem cronológica, é que percebo que o tempo é singular para nós, e uma eternidade para quem vive com HIV/AIDS e anseia uma resposta positiva de cura e aos danos causados pelos efeitos colaterais dos antirretrovirais. Nestes 30 anos as novas tecnologias colaboraram para dignificar a vida do portador do HIV, apenas uma coisa continua imutável: AIDS é uma doença sexualmente transmissível, e apesar de todas as informações, o preconceito ainda existe, e muitos pacientes se encontram excluídos do seio familiar e social.

Enquanto a cura não vem, proteja-se: use camisinha em todas as relações sexuais!

Texto de: Fátima Castro | Retirado de: SaúdePress – nº60/2011

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