Marcus Pinheiro e Bárbara Cabral
Foto: Tércio Teixeira e Reprodução Facebook 

Os pais das irmãs Ana Vitória, de um ano, e Joyci, de apenas 6 anos, que morreram na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) entre a última quarta (11) e quinta-feira (12), após terem sido atendidas com quadro de febre no Hospital Geral de Guarus (HGG) e liberadas em seguida, contestam a versão apresentada pelas autoridades da Saúde de Campos em entrevista na última sexta-feira. Na ocasião, o diagnóstico preliminar das mortes foi apontado como meningococcecemia. Marinês Cândido e Vinicius Maicon Silva mostraram os cartões de vacina das duas filhas e rebateram o diretor de Vigilância em Saúde, Charbell Kury, que chegou a dizer que os cartões das meninas estavam desatualizados, mas sem apontar a culpa para os pais. Nos documentos, a medicação contra a meningite está em dia.

O caso chegou a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), ontem, quando o primeiro secretário da casa, o deputado estadual Geraldo Pudim (PMDB) protocolou três pedidos de providência, solicitando a intervenção das autoridades e investigação rigorosa no caso da morte.

Durante a entrevista, Charbell Kury apontou como diagnóstico preliminar das mortes a meningococcecemia devido aos sintomas apresentados, somado à falta do cartão de vacina atualizado, segundo ele.

— O diagnóstico preliminar é uma suspeita de que seja a bactéria meningococo, por conta da história clínica que observamos, da velocidade com que aconteceu, com o início do quadro e a morte em menos de 24 horas, associado à análise macroscópica feita no Instituto Médico Legal, pela hemorragia na região suprarrenal. E associado a isso também, a presença da falta do cartão de vacina atualizado. Esses três fatos fizeram com que nós juntássemosas peças e fizesse o diagnóstico preliminar — disse Charbell.

Marinês e Vinicius, que ainda aguardam o laudo oficial das mortes das filhas, acreditam que a medicação injetada nas meninas possa ter causado complicações.

— Eles estão querendo colocar a culpa na gente, mas o cartão está aqui. Está atualizado, sim. Somos uma família pobre, mas sempre tivemos o maior cuidado com as nossas filhas — contou a mãe indignada. “Elas chegaram ao HGG com febre e mal-estar e pioraram depois das injeções”, acrescentou o pai.
Marinês, que revelou que fez uma festa em comemoração ao aniversário de uma das filhas no domingo de Dia das Mães, reafirmou a dor que sente e diz que a perda é irreparável.

— Eu nunca vou conseguir superar. Nós só pedimos justiça, mais nada. Quero saber o que realmente aconteceu com as minhas filhas — finalizou Marinês.

Mulher morre após ter atendimento negado

“Minha filha morreu por omissão total de socorro. Foi vítima de uma crueldade sem medida. Eu perdi minha filha. Perdi tudo”. As palavras são da funcionária pública Lenilda Santos Ribeiro, após morte da única filha, a bacharel em Direito e professora Cintia Cristina Ribeiro Alcino, 45 anos, que teve o atendimento negado nos hospitais Ferreira Machado (HFM) e Geral de Guarus (HGG) no último domingo (15). Cíntia ainda esteve no UPH da Saldanha Marinho e na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) antes de morrer por complicações cardiorrespiratórias, às 17h45 dessa segunda (16), no Hospital da Unimed, em Campos.

De acordo com Lenilda, a filha ficou em busca de atendimento por cerca de sete horas, com sintomas de gripe e crise alérgica. Ela foi à UPA, onde recebeu medicação para o fígado e foi liberada. Cíntia não teria melhorado e procurou a UPH da Saldanha Marinho. No entanto, devido à falta de materiais básicos, os exames teriam sido suspensos.

A paciente foi encaminhada para o Hospital Ferreira Machado, onde o atendimento teria sido negado após 40 minutos de espera em uma maca no corredor por causa da falta vagas no hospital. O drama da mulher continuou. Depois de cinco horas passando mal, ela foi levada ao HGG, que também não autorizou a recepção de Cíntia em virtude da falta de vagas.

Desesperados, os familiares buscaram socorro no hospital particular da Unimed, onde, mais uma vez, a paciente teria recebido recusa no atendimento. Desta vez, segundo o primo da paciente, Isaac Ribeiro de Melo, o motivo do não acolhimento teria sido a falta de um plano de saúde.

De acordo com Isaac, a negociação com a administração do hospital teria durado cerca de uma hora e meia, enquanto a paciente aguardava na ambulância, onde já estaria desacordada. Os familiares afirmam que, após o agravamento do quadro, a administração do hospital teria exigido o pagamento imediato da quantia de R$ 1.700 referentes aos serviços de primeiros socorros como condição para transferir Cíntia à Unidade de Terapia Intensiva (UTI). No entanto, a mulher não resistiu à demora e morreu em menos de duas horas depois de dar entrada na Unimed.

De acordo com a família, consta no atestado de óbito que as causas da morte de Cíntia foram edema agudo pulmonar (aumento de líquido nos pulmões), miocardiopatia hipertrófica (doença genética), cardiomegalia (coração dilatado) e hepatomegalia (fígado dilatado).

O sepultamento está previsto para hoje, às 9h, no cemitério Campo da Paz.
Em nota, a Fundação Municipal de Saúde informou que devido a complexidade do caso, não houve tempo hábil para identificar como se deu o atendimento nas unidades e se de fato aconteceu. As direções dos hospitais municipais, segundo a nota, vão apurar e posteriormente se manifestarão.
Procurados pela Folha, a secretaria municipal de Saúde e o Hospital Unimed não se manifestaram até o fechamento desta edição.

Pudim vai à polícia civil e Alerj para apurar mortes

O deputado estadual Geraldo Pudim (PMDB), primeiro-secretário da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), protocolou ontem três pedidos de providência ao procurador-geral de Justiça, Marfan Martins Vieira, à presidente da comissão de Segurança da Alerj, Martha Rocha, e ao Chefe de Polícia Civil, Fernando Veloso, respectivamente. Os pedidos solicitam intervenção das autoridades e investigação rigorosa no caso da morte das irmãs Ana Vitória Cândido Silva e Joyci Cândido da Silva, após serem atendidas no Hospital Geral de Guarus (HGG), em Campos.

O caso gerou grande comoção na cidade e levantou suspeita sobre a malversação de medicamentos por agentes de Saúde. “Embora não seja nossa intenção acusar ninguém levianamente, é necessário que todas as suspeitas sejam apuradas com a mais absoluta isenção, seja pelo esclarecimento acerca das reais causas dos óbitos, seja pela identificação do responsável por esta tragédia, caso haja um. A família e a sociedade cobram celeridade e muita correção na elucidação das causas destes trágicos acontecimentos. Eu, como pai de 6 filhos e avô de 4 netos não podia ficar calado diante de um caso desse”, afirmou o parlamentar.

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